Relação de Consumo: Elementos, Conceito e Aplicação do CDC
A relação de consumo no CDC é o pressuposto fundamental para a incidência da Lei 8.078/1990. Sem que haja relação de consumo, o CDC não se aplica, e a rela...
A relação de consumo no CDC é o pressuposto fundamental para a incidência da Lei 8.078/1990. Sem que haja relação de consumo, o CDC não se aplica, e a relação jurídica é regida pelo Código Civil ou por outra legislação específica. A relação de consumo pressupõe três elementos: sujeito ativo (consumidor), sujeito passivo (fornecedor) e objeto (produto ou serviço). A ausência de qualquer desses elementos descaracteriza a relação de consumo e afasta a proteção do CDC.
Elementos Constitutivos da Relação de Consumo
Consumidor: toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final (art. 2.º do CDC). A jurisprudência do STJ adota a teoria finalista mitigada, que admite o CDC para pessoas jurídicas que demonstrem vulnerabilidade.
Fornecedor: toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, ou ente despersonalizado que desenvolva atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços (art. 3.º do CDC).
Produto ou serviço: o objeto da relação de consumo é o produto (art. 3.º, § 1.º) ou o serviço (art. 3.º, § 2.º). A remuneração é exigida apenas para os serviços, não para os produtos.
Como Identificar uma Relação de Consumo
A identificação da relação de consumo exige análise casuística. O operador do Direito deve verificar:
Se o adquirente é consumidor final: o produto ou serviço é retirado do mercado e utilizado sem reintrodução na cadeia produtiva?
Se o fornecedor atua com habitualidade: a atividade é exercida de forma profissional e regular, ainda que sem registro formal?
Se há contraprestação econômica: para serviços, há remuneração direta ou indireta?
O STJ já decidiu que contratos de franquia, em regra, não configuram relação de consumo (REsp 632.958), pois o franqueado não é destinatário final, mas utiliza o sistema para desenvolver sua atividade empresarial. Já os contratos de plano de saúde são unanimemente reconhecidos como relação de consumo pela Súmula 608/STJ.
Relação de Consumo e Contratos de Adesão
Os contratos que instrumentalizam relações de consumo são, em sua grande maioria, contratos de adesão. O CDC dedica os arts. 46 a 54 à proteção contratual do consumidor, estabelecendo regras para a interpretação favorável ao consumidor (art. 47), a nulidade de cláusulas abusivas (art. 51) e os requisitos dos contratos de adesão (art. 54).
A jurisprudência do STJ firme no sentido de que, nas relações de consumo, as cláusulas ambíguas ou contraditórias devem ser interpretadas favoravelmente ao consumidor, e que as cláusulas que limitem ou reduzam direitos previstos no CDC são nulas de pleno direito.
Perguntas Frequentes sobre Relação de Consumo
Toda compra e venda é relação de consumo?
Não. A relação de consumo pressupõe consumidor final e fornecedor atuando com habitualidade. Negócios entre particulares, sem qualquer dos polos atuando como fornecedor, são regidos pelo Código Civil.
Um contrato entre duas empresas pode ser relação de consumo?
Sim, quando uma delas adquire produto ou serviço como destinatária final e demonstra vulnerabilidade. O STJ aplica a teoria finalista mitigada nesses casos.
Relação de consumo e relação de emprego podem coexistir?
Não no mesmo objeto. O CDC expressamente exclui as relações trabalhistas de seu âmbito. Contudo, o trabalhador pode ser consumidor em relações distintas da empregatícia, como em contratos de plano de saúde com a empregadora.
O condomínio pode ser parte em relação de consumo?
Sim. O condomínio pode figurar como consumidor quando contrata serviços de manutenção, segurança ou administração, desde que demonstre ser destinatário final do serviço.
A relação entre franqueador e franqueado é relação de consumo?
Em regra, não. O STJ (REsp 632.958) entende que o franqueado não é destinatário final, pois integra o sistema para exploração econômica. Contudo, pode haver relação de consumo em aspectos periféricos do contrato.
Relação de consumo virtual tem o mesmo tratamento que a presencial?
Sim. O CDC aplica-se às relações de consumo realizadas por meio eletrônico, com proteção adicional prevista no Decreto 7.962/2013 (regulamentação do comércio eletrônico) e na Lei 14.181/2021.
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